O “Pequeno Organon Para O Teatro”, de Bertolt Brecht, foi o último texto teórico escrito pelo autor, sendo escrito em 1948 e tendo o título com derivações de duas obras filosóficas anteriores: o Organon, de Aristóteles, e o Novvum organon, de Francis Bacon. Tal texto possui uma carga revolucionária grandiosa, pois Brecht utiliza-o para defender uma nova ideia de fazer teatro.
Tal ideia se origina a partir da crítica ao teatro aristotélico, teatro esse que utiliza da catarse para atingir o público e prendê-lo numa posição passiva, onde o mesmo se dá por satisfeito apenas observando o que acontece em cena, não trazendo para a vida cotidiana mudanças, uma vez que todos esses sentimentos foram expurgados enquanto estavam sentados em uma cadeira de teatro.
Historicamente, a burguesia entendeu como essa técnica funcionava e a utilizou a seu favor, massificando assim as pessoas e tirando qualquer desejo de mudança ou de revolução através da lavagem cerebral que acontecia por meio da manipulação das formas de arte. Um público que não questiona, não participa e se vê apegado emocionalmente aos personagens, perde a capacidade racional e fica ligado apenas ao sentimental. Algo de extrema importância para a elite que está no poder, uma vez que ela não será questionada e derrubada tão facilmente.
“[...] Olhando ao redor, vemos figuras inanimadas, que se encontram num estado singular: dão-nos a ideia de estarem retesando os músculos num esforço, ou então de os terem relaxado por intenso esgotamento. Quase não convivem entre si; como uma reunião em que todos dormissem profundamente e fossem, simultaneamente, vítimas de sonhos agitados, por estarem deitados de costas [...]. Têm os olhos abertos, mas não veem, não fitam e tampouco ouvem, escutam [...]”
Brecht em “Pequeno Organon Para O Teatro” critica exatamente tal forma de fazer teatro e a partir do Teatro Épico e a partir da técnica do distanciamento propõe uma nova forma de se fazer teatro. Brecht propõe que o ator não se torne o personagem, mas o interprete como algo à parte de si mesmo. Tal prática tem a finalidade de romper com a identificação cega que o público cria com um personagem e como consequência faz com que a plateia permaneça atenta à tudo que acontece e assimile os fatos à própria vida real.
“Nela surge o efeito de distanciamento, que não se apresenta sob uma forma despida de emoções, mas, sim, sob a forma de emoções bem determinadas que não necessitam de encobrir-se com às da personagem representada. [...] o efeito de distanciamento [...] se produz, por exemplo, se o ator, em determinado momento, mostrar, sem transição de espécie alguma, uma palidez intensa no rosto, palidez que provoca mecanicamente ocultando o rosto entre as mãos onde tem qualquer substância branca de maquilagem. [...] Esta maneira de representar é mais sã e, a nosso parecer, mais digna de seres racionais; requer não só muita psicologia e arte de viver, como também aguda compreensão do que é, de fato, importante socialmente.”
Para Brecht o teatro serve como um meio de se fazer uma revolução, tem um caráter e uma função social, mas também serve para divertir, que do latim, divertere significa: afastar-se, separar-se de, ir-se embora, divorciar-se, ser diferente. Assim é possível entender que ele propunha em “Pequeno Organon Para O Teatro” que o teatro fosse um lugar onde uma consciência social fosse formada, onde as pessoas confraternizassem, questionassem a realidade que lhes é imposta a fim de promover uma mudança no próprio mundo em que vivem.
“O teatro consiste na apresentação de imagens vivas dos acontecimentos passados no mundo dos homens que são reproduzidos ou que foram, simplesmente, imaginados; o objetivo dessa apresentação é divertir. Será sempre com este sentido que empregaremos o termo, tanto ao falarmos do teatro antigo como do moderno.”

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