A musicalidade em Brecht, em seus processos criativos e colaborativos, é extremamente presente. Dessa forma, a música em cena desempenha em seus processos uma ferramenta inexorável que engrena a dramaturgia brechtiana. "A música serve como um pilar tão central em tantos de seus constructos teóricos e como um parâmetro tão determinante para a forma, dicção e maneira de apresentar seus textos que o legado de Brecht não pode ser completamente compreendido ou propriamente acessado sem referência à música." (Kowalke, 2006: 242). É de extrema importância ressaltar que os expoentes musicais efetivos nas produções de Bertolt Brecht foram erigidos mediante à experimentações e parcerias, como a de Kurt Weill e de Hanns Eisler. A partir disso, podemos adentrar as conjunturas, composições e estruturas da ópera perscrutada pelo artista alemão.
Ao redirecionar a música para um papel elementar da dramaturgia, em contraposição ao teatro realista, o qual utilizava sonoridades de ambientação e situacionais, são redescobertos elementos épicos no teatro/ópera. Esse é um dos alicerces da anteatralidade diégetica de Brecht, a qual rompe com estruturas de fluxo de tempo e se contextualiza com interrupções e o distanciamento, "... transformando a representação em presença." (Júnior, Geraldo Martins Teixera; Dramaturgia, gestus e música- Estudos sobre a colaboração de Bertolt Brecht, Kurt Weill e Heanns Eisler, entre 1927 e 1932; Universidade de Brasília.). Nesse âmbito, a ópera é abordada por intermédio de desconstruções, metalinguagens dentro das mesmas, ironia e crítica, além das estruturas épicas supracitadas. “ A incursão dos métodos do teatro épico na ópera conduz, principalmente, a uma separação radical dos elementos deste gênero” (Brecht, 1967: 60). Dessa maneira, há em sua trajetória peças didáticas
que se formulam como anti-óperas, tamanho o esforço do dramaturgo alemão em se desvencilhar de maquinações ilusionistas, aristótelicas e dramáticas que constituíam significativa parte do fazer teatral.
A parceria Brecht-Weill dialogou com questões interdisciplinares, versou canções populares em dimensão operística e erigiu a linha do gestus. Esse conceito é um câmbio do conceito imitação, haja vista que o gestus é um dos elementos que conjura uma atuação racional, em que os atores demonstravam e sugeriam as personagens sem "vivê-las". Dessa forma, o gestus se fundamenta em princípios físicos que dialogam com o espaço, música, entonações e ritmos concomitantes à quebra de falas. É importante salientar que o gestus não visava os estereótipos e sim "o reconhecimento de uma condição social, de uma profissão, nacionalidade, de valores ou convicções do personagem, ou seja, 'atitudes-padrão', que irão se consagrar como representação de um povo e de uma época." (Gaspar Neto, 2009, p.7). Após a ruptura dessa parceria, Bertolt Brecht se filiou à processos colaborativos com Hanns Eisler, período que se configurou uma notável vertente política em sua dramaturgia, e uma diminuição musical em suas produções.

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